sábado, 2 de abril de 2011

DESABAFOS! [REUNIÃO DE PENSAMENTOS]

A seguir, listei, na íntegra, alguns comentários/pensamentos (desabafos) que postei numa única noite no Facebook:
  
A vida precisa necessariamente ter sentido? Ou ela pode ser como o texto literário, sobretudo o poema, existir por si mesmo, sem necessariamente manifestar ou reclamar funcionalidade? Pensando... E cada vez mais chego a um esboço de resposta: os ignorantes são mais contestes e satisfeitos! 

a vida é feita de escolhas, e se você não tiver coragem de assumir, acreditando e lutando, por aquilo que realmente deseja, nunca terá paz! Há caminhos, há vidas, mas nem todos os caminhos nem todas as vidas trazem o gozo que liberta a alma. Pense... Ouse... Se permita. Viver é o agora. E o agora é instantes; não há tempo para medo. 

Pensando um pouco sobre minhas escolhas... 

Existem problemas em você ser e estar espontâneo, livre, sincero, acreditando nos seus sonhos, crendo em seus desejos? Acredite, há, sim! Mas não em você que possui a loucura que dá fôlego à vida, e, sim, nos outros que não lhe compreendem e têm medo de sua forma genuína de ser e estar. Porém, você nem os outros são melhores ou piores um em relação ao outro; antes, são apenas maneiras de a vida se manifestar... 

Estou cansado, muito mesmo! Mas hoje, precisamente agora, preciso GRITAR! SOU UMA PESSOA QUE ACREDITA FÁCIL NAQUILO QUE OS OLHOS DE ALGUÉM DIZEM PARA MIM. POSSO SER ATÉ INGÊNUO, MAS NÃO SOU BURRO. PAGO PARA VER. NÃO TENHO MEDO DE QUEBRAR A CARA. AFINAL, "PÉ QUE NÃO ANDA, NÃO TOMA TOPADA". E EU ESTOU AQUI É PARA ARRISCAR E PROVAR! QUE VENHAM AS EXPERIÊNCIAS... 

A VIDA É UMA SÓ, E EU QUERO É VIVER! SE VOCÊ SE ASSUSTA COM MEU MODO DE SER, TENTE ME COMPREENDER E ESTAR UM POUCO DE MIM AÍ EM VOCÊ. SE PERMITA, NÃO CUSTA MUITO. 

O sono foi embora, e a mente está alerta! Isso é bom? Talvez. Basta você ter paciência e me escutar. Quem sabe aprende um pouco de si através de mim. Não é por menos que compartilhamos de mesma espécie. São justamente minhas diferenças que me aproximam de você; nas diferanças que nos assemelhamos! 

O sonho acabou? Talvez, Ainda não sei. O tempo nessa hora é o Senhor! Sei, sim, que se ele se for, ficarei sentido, muito mesmo, mas possuo em mim vontade gigantesca por vida em gozos intensos! Necessito viver em amando, livre, em plena liberdade. E é, justamente, amando a você que confirmo o quanto me quero bem! 

Para que melhor e maior forma de amor: acreditar no desconhecido, mergulhar na loucura e se permitir aos sentimentos? Certeza? Nem em nossa introspectividade há, imagine na cabeça inviolável de outra pessoa? Ainda crê que a loucura é un suicídio ruim? 

Pois é me matando aos poucos que vou vivendo e aprendendo com a Existência... 

"Fome tem pressa", portanto vale a pena esperar muito por algo que você tanto deseja? É sábio esconder-se no medo? É justo consigo e com o próximo exigir muitas provas de algo/alguém que sempre será o outro, o estranho, o desconhecido mesmo que esse deite em sua cama por anos? As respostas estão em suas atitudes! Reafirme-as ou as radicalize! 

Verdade é forjamento, convencimento, aceitação, arraigamento e manutenção. Logo, todo discurso é, ao mesmo tempo, verdade e mentira. Sua natureza é ambivalente. É, justamente, quem a recebe e a reflete que determinará se ela é ou não uma verdade ou mentira, como minhas palavras aqui, por exemplo! 

Bem, é hora de ir. Aos que ficam, resta a derradeira mensagem: a vida é feita de escolhas. Pense, repense. Se puder, se quiser, se tiver certeza e coragem, confirma ou muda. O que não é justo é estar cônjuge com o medo na sua curta experiência de vida entre nós: os reféns da fome, a qual tem pressa. Boa noite a todos! 

Diógenes P. Silva. Salvador-ba, entre os dias 01 e 02/04/2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

OUTRA DELÍCIA! [POEMA]

Inédito!
Hoje acordei com sorrisos
nas pontas dos dedos
e carícias nas faces dos olhos!
Amanhã não é apenas incerto;
mais: é perspectivas positivas
de que para um Peito Ansioso
existe uma Cabeça Atenciosa. 
Em mente: entre sorrisos e choros,
está lá sentimento confusamente maravilhoso
em sua razão esquisita: saudade,
aquele que nos move a loucuras fabulosas!
E vida está por aí...
Abundantemente frágil e bela, cortejando morte, 
e, enquanto ocorrer movimentos,
haverá vontades inquietas em desejando...
Janelas se abrem, portas se escancaram e tudo escapole.
Querer é só um: rua, asfalto, jardins, praia já!
Afinal, existir é agora.
E agora não espera.
Umbora, Painho e Maninha... 
Bora? Delícia... rs

Dió. Ssa-ba, 01.04.2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

MOMENTO EM MOMENTOS [POEMA]


Tempo judia de paciência
Dias são gigantescos
Noites, eternidades
E angústia cresce vigorosa
Não vejo instante
Já antecipo o sabor daquilo que será delícias
Mente fantasia tudo maravilhosamente
Sinais são abundantes
Mãos reclamam companhia
Ouvidos solicitam voz amada
Pele exige carícias
Rosto pede beijos
Peito clama por compreensão
E agora está num aguardar terreal!
Ai Deus, me escuta!
Faz de meus limites
Chuvas em deserto
E rios andarilhos para mar
Não me poupe de tanto
Por tão pouco
Alivia tensão
Faz distância apenas ponte
E me liga àquele
Que rouba minha atenção dedicada
Afinal sou o barro que anseia estar vaso
Há espaços para oferendas...


Dió. Ssa-ba, 30/03/2011

terça-feira, 29 de março de 2011

O QUE TEIMA NÃO SAIR... [POEMA]


Por que o desejo por beijos?
Por que a vontade por abraços?
Por que a espera por carinhos e palavras doces?
Por que a esperança de encontrar aquilo que mais parece sonho?
Por que essa necessidade de se completar com alguém?
Muitas perguntas. Outras tantas especulações. Vários devaneios.
Algumas dúvidas. Confusões.
Às vezes, sofrimento e até dor em contrate relâmpago com alegrias e êxtase.
Certeza só uma: eu quero, eu quero, eu quero. Ai como eu quero muito!
O pensamento vai distante, se recusa pairar nas obrigações
E reclama resposta

Onde estava, está e estará? O que fez, faz e fará?
O que pensou, pensa e vai pensar? O que sentiu, sente e vai sentir?
Querer é mais que querer; é urgência de bem-estar na agonia
Não importa o que digam nem o que a maldade da mente suscite
O que vale é o que foge ao consciente
E faz emergir desejo escândalo de ter, possuir, usufruir
Momentos inéditos, ainda não provados...
O que fazer? O que pensar? O que escutar? O que falar?
O que não cometer? O que não imaginar? O que não ouvir? O que não dizer?
É cruel. Ora barulho, ora silêncio.
E a mente não para, corre até o que é a razão da inquietação
Afinal, tudo isso é muito gostoso, sim!
É o espelho na perspectiva de outro reflexo

DIÓ. SSA-BA, 29/03/2011.

MAIS UMA DAS DELE [POEMA]

O amor tem dessas coisas...
deixa a gente bobo leve respirando ansiedade
sempre aguardando um pouco mais
nunca satisfeito de tocar e ser acariciado...

E o mundo só suspiros
delírios que dão outra cara à rotina

Não acontecem despedidas
a presença é constante
e aquele que faz dos dias
único agora intenso
belo alegre diverso

Não tem como negar
é reafirmar constantemente
o estado é outrom, sim
encontrar nos olhos certos a razão incerta
de ser apenas um
em busca dum peito seguro para descansar

E a fome por descobertas a dois continua animadíssima
a cama na qual se deitam satisfeitos
a Vontade e a Realização
suspiros sorrisos risos gargalhadas
o encantamento mostra suas dimensões...
formas de viver

E eu em você você em mim nós em um
plenitude de felicidades

Ainda existem muitos abacates e passarinhos...
então, que haja os encontros!

Dió. 29/03/2911

domingo, 27 de março de 2011

APENAS O COMEÇO... [POEMA]



É incrível como muita coisa não é necessária, bastam
O olhar certo, direcionado, descobridor;
A voz firme, deliciosa, excitante;
O toque cuidado, delicado, amante;
O cheiro gostoso, encantador, inebriante;
O abraço forte, seguro, duradouro;
O beijo amigo, quente, namorado
E o impossível se torna mais que fato,
Permissão em experiências revigorantes!
É engraçado como não há espaço para razão.
A mente é apenas agitos,
Confusões harmônicas de sentimentos variados
E os estranhos e distintos se aproximam...
Não é por menos que a verdade marca presença:
Animais de mesma espécie se reconhecem pelo cheiro.
Coisas acontecem...
Criatividade de desejos e vontades explode!
O encontro: o Eu se entrega ao Tu,
É o Outro no Ser!
A alma suspira,
O espírito vai ao êxtase,
O coração sorri
E os corpos já são o corpo.
Ai como é muito maravilhoso sorrir!
E sorrir com alguém especial ao lado é muito melhor.
Aí vem o sono gostoso...
Noites... E o Amor é a rotina.
A vida dá novos e firmes passos...
Mais que real, realização!
Que os sonhos nasçam, cresçam e se procriem!
Afinal, isso é apenas o começo...


Diógenes Silva. Salvador- Bahia, 27/03/2011.


Dedicado À Pessoa Especial, N...

sábado, 26 de março de 2011

SAUDADE [DEFINIÇÃO]


Saudade: sentimento que supera facilmente a Falta/nostalgia/I miss you. Mais: é a presença da ausência de algo ou alguém muito querido, estimado, importante para o inventário de desejos do ser, aquilo/aquele que o faz gozar em nuances e perceber que, além de estar vivo, possui o bem-estar revigorante em si...; espécie estranha e bela de dor que remete a momentos maravilhosos, que teimam não cair no esquecimento; vontade incontrolável, e incontida, e teimosa de ter outra vez o estimado - logo, a qualquer custo!; desejo de manter em si o outro como parte importante, vital e hodierna de sua beleza, vaidade, orgulho, alegria. Saudade é fantástica; maravilhosa porque é sentimente que só surge em face de algo realmente estonteante! Mais uma prova de que o Ser não acaba em seus limites físicos, psíquicos.
Saudade vaza, deliciosamente, por outras dimensões: o outro, os outros, a outra, as outras... Ela traz consigo o sorriso! Sorrir é bom, e sorrir com mais de um/uma é mais ainda, muito mais! Sorria, faça sorrir, riam juntos!
Saudade.
Saudades...

Dió. Ssa-bahia, 26/03/2011.

domingo, 20 de março de 2011

QUEM SOU EU... [TEXTO ABSTRATO]

Sou tudo aquilo que anseio e creio ser, tudo o que não desejo nem creio ser, tudo que deixei e penso ter largado, tudo que não consigo ser e não alcanço, tudo que sou, não quero ser e não consigo abandonar;
e, igualmente, sou tudo aquilo que os outros pensam que sou e querem que eu seja, mais: tudo que não acreditam e não querem que eu seja ou venha a ser.

Eis-me além de Ser: sou continuum em estar perpétuo entre o nada e o tudo, ambos vastidão e mistérios. Em Estar buliçoso, já me encontro nas intempéries do introspectivo quimericamente permitido à construção: construído, se montando, sendo moldado e se forjando eternidade de ter um pouco de todos e estar contido bocadinhos em cada um, sempre insatisfeito.

Guloso, quero expansão. Experimentar é mais que portas para os sentidos, é os corredores por que concebo a Permissibilidade em permitindo. Mosaico, canto, danço, pinto, esculpo, em nuances, a beleza da diversidade em cada traço que me é comum, estranho, extravagante, pitoresco, burlesco, tosco, singelo, pulsante, pujante aprovado ou rechaçado. Estou além de alegoria de Vida, sou releituras de existências em Existência. Legitimado é o Universo por meio de cada movimento meu (mesmo aquele que crê ser inércia!).

O Cosmos é aqui: eu em você, você em mim, nós nas coisas, tudo em nós, misturas. Que sejam bemvindos todos e todas que portarem em si a vontade de transar. – Será que há alguma coisa que não tenha essa força? – Faço de mim, desde já, o convite e a panela nos quais façamos o banquete e a festa. E espero de você mais que a boca ansiosa; os dedos nervosos e os olhos saltitantes. Que venha a Fome!

DIÓ

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Espaço público: lugar de ninguém? [crônica]

            Depois de uma intensa manhã de sábado, quem resistiria ficar em casa em plena tarde ensolarada de fevereiro na Bahia? Dia lindíssimo: sol, calor, brisa, muita gente na rua. A final, é verão!!! Com ele, toda a vontade e disposição de interagir com o meio e, principalmente, com muita coisa que tem nele. É tempo de se dar... Praia na certa. Não é à toa que os ditados rezam: “pé que não anda, não toma topada” e galinha que vive presa no galinheiro, não vira comida de sariguê. Contrariar? Jamais! Asfalto já.
            Chegado o destino, a ansiedade cede lugar ao deleite de todos os sentidos em uma única direção: gozar a vida em nuances... A luz e o calor do sol somados à brisa do mar, a maresia mais gente de todo o tipo, de um lado pro outro, fazem a alma enlouquecer e o corpo gritar as necessidades dele. Delícia... Ócio maravilhoso e revigorante. Stress? Esquecido.  As dores passaram a risos, gargalhadas, charmes, estratégias de apresentação e conquista ou simplesmente o desligamento de muita coisa a favor do encontro de si e da conquista de paz – serão possíveis esses dois últimos em praias agitadíssimas da Cidade da Bahia? A quem jura que sim. Demos o direito à dúvida. – O que vale é realizar o que necessita: desejos em manifestação.
            Até então tudo belezinha... Ops! Como nada é paraíso para sempre, alguma coisa tinha que, no mínimo, lembrar que existe inferno. Algo grotesco dilacerou o sorriso e trouxe a repugnância. Um indivíduo fuma em público, em plena praia lotada. Insiste em compartilhar a má sorte do pulmão dele com os outros. Mais: depois que termina com sua bombinha, cava a areia com o pé, joga o bago de cigarro nele e depois enterra com a maior naturalidade, como se tivesse feito o dever de casa. Ridículo.
         Bastei dar uma caminhada pela areia, ao longo da praia, pra ter a certeza que aquele ser não era o único. Pelo contrário, como ele, muitos (a maioria) compartilham hábitos similares de falta de respeito, consciência, cidadania, altruísmo e até mesmo amor próprio. Uns aqui, outros tanto ali, mais um bocado lá. A ordem parecia ser uma: consumir. E, como todo consumo resulta em resíduos, quem quer ficar com o lixo? Se livrar dele. Nem se dão ao luxo de pensar. Jogam ali mesmo onde estão ou, no máximo, no espaço do outro ali pertinho.
De latinha de cerveja, palito de sorvete, guardanapos usados, embalagens, restos de comida a xixis na areia, nas pedras ou no mar. A praia, lugar de lazer, ironicamente também é a enorme lixeira e latrina. Tudo misturado numa confusão só. O engraçado é que aqueles que jogam sobras de alimentos ou fazem necessidades na praia tentam minorar e até eximir sua culpa e responsabilidade pela ação infratora cometida ao afirmarem descaradamente que comida vai apodrecer, virar adubo, se decompor e mijo não vai poluir nada. A água do mar mata tudo, né? Portanto, nada disso vai agredir a natureza. Engano desgraçado. Talvez não saibam ou simplesmente ignoraram o fato que são eles mesmos genuínos fazendeiros, tropeiros e comerciantes de pragas (ratos, baratas, pombos, vírus, bactérias, fungos), além de mantenedores de pestilências, os quais, em breve, serão os consumidores do azar que patrocinam.
Chega. Vez de retornar. Na rua, no caminho de casa, vi que a falta de hábitos saudáveis não é marca adquirida de gente pobre. Um carrão importado passa em velocidade alta e arremessa uma latinha de cerveja voadora pra fora, ainda cheia! Mais que abuso e arrogância, prepotência, presunção e postura inconseqüente.  No busu, muita gente falando alto, espirando ou tossindo sem o menor cuidado, comendo, bebendo e jogando os restos no chão do ônibus ou pela janela, sem se preocuparem com aqueles que passam ou estão lá em baixo. Ah, não podemos esquecer das cusparadas e catarradas! E carros e transeuntes não são diferentes.
Reside na cabeça de todos, provavelmente, a mesma razão que justifica e impele os hábitos nojentos e antissociais citados: o espaço público é público, não é de ninguém, logo eu posso fazer tudo; tudo que em casa, no lar dos outros ou em local de Senhor e Dama não é correto nem admissível fazer. Babaquice e otarice!!!
O espaço público é público justamente por pertencer a todos. É meu, é seu, é dele, é nosso. É dever de todos zelar por ele. Não é um lugar sem dono nem lei. Não pense que os responsáveis pela ordem e bem-estar são apenas os funcionários do Estado. Chega de ilusão autodestrutiva!
Somos nós todos os proprietários e os agentes de manutenção; igualmente, operadores da lei e da ordem do espaço que está além do privado, o qual não está longe, nem é estranho, nem impessoal. Ele é, sim, a extensão de nosso lar.
As coisas só vão melhorar quando cada um ter a consciência que, assim como em casa  não se caga, não se mija, nem se come, nem se joga os resíduos a migué, em qualquer canto, na rua, no parque, na praia, na calçada, também não espaços apropriados para isso! Quando todos invocarem a responsabilidade pra si e esboçarem atos renovadores e saudáveis, a sociedade começará a lutar de fato contra muitos de suas inconveniências. Vamos lá! Vamos descascar esse abacaxi , chupar essa melancia e comer essa jaca...


Diógenes Pereira. Salvador-Ba, 13/02/2004.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Retrato [poema]

De mente gostosa
De maresia boa
De sossego alegre
Não há em si violência
Apenas vontade de amar
Sobre o sacrifício do estresse

E ele fazia de si o Alívio
Daquele que busca a cura
E eu o invejava em admiração e em carinho
Por ele não ser...
E muitos e tantas o queriam em fotografia
Quem não deseja paz?
Não seria eu o não
E a criança nascia travessa de si
Contagiando a muitos
Com tanta realização
Numa só criatura
Perfeição não é
O caminho é longo
E ele vai animado
Não há dúvidas:
É raridade!
Um dos poucos que se pode denominar
Puros de coração
Vida agradece
Natureza envaidece
E Orgulho é Outra Felicidade...

- DEDICADO -
Dió. Salvador-Ba, 30/01/2011.








MOMENTO [POEMA]

SOL A ANIMAR
VENTO REFRESCANDO
MAR A EXITAR
GRAMA ACARRICIANDO
PENSAMENTOS AUSENTES
ESPÍRITO SOBRE A CARNE CONTENTE
VIDA, SOMENTE EXISTÊNCIA PLENA
EM OUTRA ARROGÂNCIA...

CORPO DESCANSAVA SERENO
E SATISFEITO LOGO FICARIA
VINHA SEM PRESSA
EMBALADO PELOS SONS LIVRES
E OI FOI O COMEÇAR
E OS OLHOS? OS OLHOS ERAM MAIS...
E QUANDO OS LÁBOS SE ENCONTARAM
DESCOBRIMOS O SORRISO

CONHECI O QUE É SER EM ESTAR JOAQUINA
SEM LIMITES DE DESEJO JANAÍNA
EM MUITAS DIREÇÕES PETRINA
MULHERES...
E APENAS UM OBJETIVO
EXPANSÃO PELA FUSÃO
MISTURA DE UNIÃO
CASAMENTO COM MÃOS, PAIXÃO!

DIÓ. SALVADOR-BA, 30/01/2011.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O SAUDOSISMO [TEXTO ACADÊMICO: RESENHA]

              Saudade: vocábulo mórfico constituído por sete fonemas, os quais criam o significante que é único em língua portuguesa apenas (não existe em alguma outra língua!), ou seja, idiotismo. Essa unidade lexical possui um significado que exprime muito o que fomos e o que somos como povo, cultura, civilização, desde os tempos remotos do antigo Condado Portucalenses ao grandioso e paradoxal Brasil de então, num continuum rasgado e marcado por muita dor e sangue, e também beleza e alegrias.

                Será mesmo que tudo isso é passível de representação por uma palavra somente: saudade? Óbvio que não! Mas é a partir dela que daremos um importante passo a fim de compreender como ocorre a idiossincrasia da Nação Portuguesa em face de sua própria gênese, como mais uma possibilidade de manifestação do humano, em nuances de permissibilidade criativa, multicor e pluriforme.

                 Segundo um dicionário brasileiro da língua portuguesa, o substantivo feminino saudade denota: lembrança nostálgica de pessoa, situação ou coisa distante, ausente ou extinta; sentimento de pesar pela ausência de um ser querido; e lembranças afetuosas ao objeto de desejo ausente [adaptado]. Logo, chegamos à conclusão de que Saudosismo não é um mero produto derivacional de saudade; mais que isso, é a própria cara de uma Nação que vê, em seu passado longínquo, a esperança reconstrutora para um país, hoje, mergulhado no oceano de esquecimento de seu anonimato angustiante. A saudade daquele Portugal de glórias acompanha toda a história do povo português até a contemporaneidade, portanto.

                   Contudo, o que me incumbe, aqui, é entender o que foi/é o Saudosismo – redundantemente – Português. Justamente, é ele isto: o passado como tentativa de reconfigurar o presente com a marca de mais positivo; é o Sebastianismo Fênix, sempre retornante; é o (re)cantar Portugal de outrora, inventado em Os Lusíadas de Camões; é o movimento socioliterário que se inicia nos primórdios do século XX, cujo precursor foi o Poeta e Pensador Teixeira Pascoais.

                     O citado movimento Socioliterário, igualmente conhecido por “Renascença Portuguesa”, cujo órgão oficial foi a revista “A Águia”, tem suas origens alicerçadas num tempo em que Portugal, sob o estigma do Ultimatum, sente-se inseguro e pessimista, emergindo, em seu seio, todo o sentimento saudosista. Em consequência, muitos portugueses, principalmente escritores e outros intelectuais, deprimidos frente ao Portugal do indegustável presente, refugiam-se no passado de virtudes, com o desígnio de reconstruir sua Pátria sob os moldes da potência imperialista quinhentista-seiscentista dos grandes, deslumbrantes e mistificados descobrimentos.

REFERÊNCIAS:

MOISÉS, Carlos Felipe. Roteiro de Leitura: Mensagem de Fernando Pessoa. P. 11 a 24. Ática: São Paulo, 1996.

XIMENES, Sérgio. Minidicionário Ediouro da Língua Portuguesa. Ediouro: São Paulo, 2000.

Por Diógenes Silva. Salvador-ba, 19 de novembro de 2006. Parte integrante do trabalho de Literatura Portuguesa II, semestre 2006.2. Letras- UFBa.

ONDE ESTÁ (POEMA)

Às vezes, a Solidão é carinhosa

Não causa medo, é bem-vinda

Há outros momentos em que ela

Devassa a intimidade sem pedir licença

Sem cerimônia alguma

E mostra mais que carência

Exibe aos tapas e cuspidas

Necessidade de permissibilidade

A experiências por meio do Outro

Não só nos agoras, além e aquém

Deixando o Inconsciente fazer do Amor

Pista pela qual sua Conveniência fará

Inúmeras travessuras sem consentimento

Ou complacência do Ser que habita

Isso não é problema...

Pelo contrário, torna o Drama do gostar e ser correspondido

Ainda mais delicioso de se assistir

Seja de camarote, seja como contracenador

O complicado é justamente o Outro

Melhor, onde o encontrar

Miséria, onde está o Outro?

E a pergunta volta com resposta...

A tristeza é a companhia no momento

Resta Sonhar pelo Desejo que balança

Entre a resignação e a rebeldia

E os dias ficam longos

E as noites, mais silenciosas

E esperança aqui, inquieta.

O Carteiro vem, cumpre seu ofício

Acaricia Blanc e se vai outra vez...

Lembrei do dia do primeiro beijo...

Voltei a Sonhar...

Que o Sol não chegue tão cedo



Diógenes silva. Ssa-ba, 1-12-2010.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

SIM, SENHOR:PUTA! [POEMA]

Entre encontros e desencontros,

Me firmei Cristina:

Mulher,

De cor indefinida graças às Divindades ou

À sacagem de Donas e Senhores e Coisas e Peças (?)

E Vontade Pestilência – destruir o máximo que puder.

Buceta! O desejo é o prazer...

A volúpia se esparrama sobre esse corpo

Que reclama criativo por gozadas.

Luxúria , apenas um de muitos apelidos

A que podem me cantar.

Puta. Puta, sim, Senhor!

E muitas que fazem do corpo (e da alma) o café-da-manhã,

O almoço, o jantar de cada dia,

Além dos trocados pros moleques das saidinhas e brincadeirinhas

E o agrado pras comadres de copo e janela.

Vê esta marca? Ela é uma de tantas que narram bafos e acontecimentos

Que por aqui, Dear, passaram felizes...

Viver? Isso não é nada!

Brincadeira é dançar sobre o sorriso largo da Desgraça,

E não se deixar adormecer sob os carinhos traiçoeiros da Morte.

Operária. Atriz. Empresária. Vencedora!

Às vezes, o drama é tanto que nem sei quando é sonho,

Pesadelo ou segunda-feira...

“Acorda, Alice de Cachoeira!”, digo eu todos os dias pra mim quando abro os olhos,

E dou adeusinhos às Quintas.

Preciso faturar! Vagina santinha e cu na espera não sobem em trio!

Ninha aqui nunca foi Barbie.

É na desilusão e na ardência e urgência do desconhecido(a)

Que me faço Presente.

E, embalada em cores vivas sobre cortes devassadores,

Me mostro rebeldia de menina que só quer brincar:

Possibilidades do absurdo!

Venha. Não se acanhe, Fio. Neguinha de cá só quer...

A gozada, Preta, é apenas o iniciar...

Diógenes Pereira. Ssa-ba, 29-11-2010.

ATENÇÃO:
                     Devido à ocorrência de fatos desagradáveis, constrangedores, DEIXO CLARO QUE O POEMA ACIMA NÃO FAZ REFERÊNCIA DIRETA OU INDIRETA A QUALQUER PESSOA QUE SEJA. Não se trata de um texto biográfico. Antes, é apenas um poema no qual o EULÍRICO assume a voz de um entre os tipos sociais: A PUTA (sem tecer traços de desdém), a fim de manifestar o poema...

PRISÃO SEM MUROS [ENSAIO]

I


       Passos rápidos. Pressa era a vez. O cheiro de comida maravilhosa me bombardeava todo. O Olfato me guiava corredor a dentro. Nada à mente de substancial. E quando finalmente a Ansiedade cedeu seu espaço, me deparei com o inacreditável: O Banquete; não um qualquer, mas de fato O Banquete, e todinho meu, só meu. Não. Minto. Meu e de minha Gula incontrolável.
      Sem pensar, já estava todo mergulhado naquelas maravilhas da arte culinária. Gozo, gozo, gozo!!! Todos os sentidos estavam voltados para o prazer de comer e beber. Contentamento, Felicidade e Paz estranhas me invadiam. Nada me perturbava ou me importava naquele agora. Até o momento em que eu... Uih!
        Iiiirrrrhhh... Foi o grito que me fez Paralisia total em Arrepios frios e acres! O Tempo parou. Congelado estava por completo. Não conseguia me mexer. O Medo já havia reivindicado minha identidade. Talvez, só meu corpo estivesse lá, pois a alma, esperta, já deveria estar bem longe. E pra piorar, veio o terrível silêncio logo em seguida. Nada se movia ou se ouvia; a não ser as batidas do coração aflito. Comecei a buscar aquilo que me atormentava apenas pelo giro de olhar e investidas dos ouvidos. Nada. Apreensão. Medo, terror, pavor... A fome morria, o prazer nem lembrança mais deixava. Tudo acabado. Não, ainda não. Faltava mais...
       Um passo, segundo passo, terceiro passo... No reflexo, me virei, e nada. Quando retorno, a Coisa já estava sobre a mesa, babando. Provavelmente, deliciando o que logo seria suas fezes. Saltei pra traz em defesa legítima! Jamais poderia me entregar àquela abominação. Corria, corria, corria. Sem olhar pra traz, só enxergava o pior! O bafo do monstro fazia carícia satírica em meu cangote. A qualquer momento eu já estaria sob o destino que ela me guardava.
        Ofegante, as forças iam me escapulindo aos pouquinhos pra alegria do horror. As pernas já não aguentavam mais. Até que parei e esperei resignado que o Terror me consumisse. Espera. Por que ela não me atacava logo e terminava tudo de uma vez? Não. Assim não teria graça. A Coisa também gostava de ter prazer. Ela gozava com minha aflição. Sua superioridade mediante minha impotência indefesa fazia de si a Realização da Glória. Então, me voltei e encarei a Coisa. Li nos olhos dela o que jamais imaginaria acontecer comigo. E, num único pulo, ela já estava sobre meu cadáver, dilacerando tudinho. Só a frieza de suas garras e dentes mais o calor de sua saliva me lembravam que ainda existia vida em mim. Vida que logo acabaria...
         E a morte veio infalível. Foi aí que abri os olhos sem pressa. Caminhei as mãos pelo corpo suado e ainda trêmulo. Estava no meu quarto todo iluminado. Era dia de muito sol a entrar pela janela aberta. Alívio. Foi apenas um pesadelo. Daquela eu havia escapado. Contudo, de outro monstro ainda pior, não. Desse outro eu ainda sou freguês fiel!

II

           Não há dúvidas de que aquele monstro do pesadelo é apenas um reflexo do que há dentro de mim e de cada um de nós todos. A cada instante, somos dilacerados por nós mesmo, numa ação canibal insaciável movida por aquele que é nosso maior inimigo: Nossos Problemas.
           Os problemas são muitos. Alguns escancarados, outros sutis, alguns tantos camuflados, outros praticamente invisíveis ou imperceptíveis. Vários detêm nossa aquiescência e conveniência, outros obtêm nossa complacência e tolerância, alguns gozam de nosso respeito, medo e submissão. Eles existem. Estão lá, fazendo de nosso ser um verdadeiro campo de batalhas onde quem geralmente perde é nosso Bem-estar.
           Quem, vez por outra, não se pega se sentindo impotente, incapaz, despreparado, indefeso em face de algum desafio, dificuldade, pensando logo em largar tudo, esquecer o que puder e fugir pra bem longe? Todos. Inevitavelmente, somos seres limitados que tendemos a nos atrofiar ainda mais. O irônico é que temos a incrível capacidade de aprender com os erros e a crescer a partir da dor; mesmo assim, o que vem primeiro à mente é a vontade de desistir e se refugiar na ilusão aconchegante e viciadora das instâncias da introspectividade – nem sempre sonhar é bom. Assim como o que distingue o remédio curador da droga nefasta, o que diferencia o desejo-sonho inspirador e motivador do desejo-fantasia ludibriador e ignominioso é justamente sua intensidade, duração, finalidade e eficiência. – E muitos de nós cedemos ao primeiro impulso por parecer mais fácil e cômodo, tornando-nos vítimas do nosso predador: a falta de coragem e atitude para encarar o desafio, escrutando-o, devassando-o, dessecando-o, compreendendo-o, tornando-nos íntimos de suas estruturas e vontades para que assim possamos superá-lo e podermos amadurecer a partir de cada conquista sofrida – apenas ideal para muitíssimos, e, como todo ideal, algo inalcançável!
          Quantos nunca desejaram algo, quiseram muito obter alguma coisa e por algum motivo (banal) não conseguiram, desistindo antes mesmo de tentar ou logo no início da busca? Ninguém escapa. O fracasso tem a direção voltada para frustração. E como se frustrar é vergonhoso, sofrido e humilhante, pois deflagra nossas fraquezas, a ordem é esconder o que dá e fingir que tudo anda como Papai Noel planejara. Viver sob máscaras é o dia-a-dia. Sorrir escondendo as lágrimas traz a falsa sensação de que somos menos medíocres. Contudo, o desejo foi adiado, o gozo foi abortado, e a frustração cresce vigorosa, impedindo que nos olhemos no espelho com a satisfação daquele que tem o dever cumprido: permitir-se às experiências, somando-as ao devir que é o nosso próprio ser.
          Quem não se envaidece de alguma qualidade que porta, até mesmo a supervalorizando a fim de se mostrar mais notável que os outros? Todos nós; claro, uns mais que outros, com mais frequência.Ter orgulho e vaidade de si não é coisa ruim. O problema está é quando se perde a noção de que somos iguais justamente em nossas diferenças. Fulano pode ser magnífico em algo, mas é imaturo em outra coisa. Cada um possui seu quinhão de glórias e bocados de ignorância. Utilizar-se de uma ou algumas das qualidades nobres para montar uma imagem magnífica e excelsa de si em detrimento do outro é mais que repugnante, é repudiar o que tanto a natureza prega: troca de fluidos, experiências, cruzar, interagir, habitar, coabitar, conviver. Infelizmente, o movimento de se tornar o Destaque só traz desprezo, ódio, rancor do outro para si e leva de si para o outro indiferença, soberba, arrogância, cindindo a solda que torna o humano a Sociedade: indivíduos solitários, vazios em suas riquezas, títulos, prestígios e glórias. O que adianta uma maravilhosa mariscada se você não tem com quem compartilhar? Nem o espelho tolera mais tanta nojentice.
        Quem insiste em não enxergar o belo, a razão, a inteligência, a criatividade, a argúcia, a sabedoria, a solução no diferente outro (apenas por ele ser apontado como tosco, burlesco e inadequado), fechando-se na mesquinhez de seu preconceito? Todos nós de acordo com a sede da conveniência. A cegueira maligna é certa para aqueles que se consideram superiores. Sua arrogância os torna obstinados na planície esburacada que é o seu modelo lacunar, aquele que, supostamente, emana unicamente a verdade. Não sabendo esses que a verdade é o convencimento. E seu convencimento nem sempre é o do outro, geralmente chocando com a idiossincrasia legítima daquele que não compartilha seu espaço. Outra vez não há diálogo; apenas, hostilidades. Danificada fica o canal pelo qual as partes poderiam transar e gerar a permuta que os fortaleceriam a partir da vivência e expectativa de ambos os lados, que necessariamente não precisam ser opostos e conflituosos, podem ser paralelos e harmônicos, entre outras possibilidades de ocorrer.
           A quem não podemos chamar de egoísta? Outra vez ninguém. Mesmo o indivíduo mais altruísta, opera a seu favor explicita ou tacitamente. Primeiro sou Eu, depois eu e eu outra vez. O outro só é lembrado quando esse faz parte de nosso inventário de desejos ou quando ele é uma potencial vantagem a nos servir. Até aí está tudo normal – normal aqui entendido como algo comum, que ocorre com frequência. – Mesmo vivendo em comunidade e precisando um do outro não só para usufruir de coisas do hodierno mas também das necessidades da carne e da psique, o indivíduo é uno, e como tal, tende a pensar e agir como Um, mesmo quando leva benefício e prazer ao outro. O prazer, o gozo, a satisfação do outro a quem se tem apresso nada mais é que uma de muitas formas possíveis de manifestar o inventário de desejos do Ser. Não é à toa que muitos se iludem ao acreditar que amam de forma gratuita alguém. Mentira. Não há gratuidade. O que ocorre é o mascaramento do interesse, voluntária ou involuntariamente, entorno de lances de efeito (carinho, atenção, afeto, prestatividade, solidariedade, compaixão, voluntariedade...). Creio que esse amor alterego não passe de uma parte do amor nuance do ego narciso. Vejo isso como fato inevitável pela simples razão de cada um ser um ente entre tantos; ente esse que é único, único em tudo, desde suas vontades e caprichos aos seus medos, limitações e frustrações. Portanto, o altruísmo é uma das mais fortes farsas que existem; em outras palavras, um dos mais pujantes ideais. Quem sabe mais uma fábula ou algo apenas realizável por seres perfeitos, como Jesus Cristos, por exemplo. Ademais, penso que o problema surge quando esse (diga-se) egoísmo inato e inevitável toma corpo a tal ponto que se torna egocentrismo. Esse, sim, é prejudicial, porque ele é a declaração sem cerimônias de que Eu sou mais importante que qualquer coisa. Isso magoa diretamente o ego narciso do outro, que vê toda uma imagem construída daquele que o fez e faz bem se desmantelar satiricamente frente seu estupor e suspensão. Incredulidade. Indignação. Revolta. Raiva. Ódio. Pavor. Abandono. Resignação. A separação é inevitável. O ser egocêntrico é extirpado do inventário de desejos do outro. O outro passa a vê-lo como chato, sem graça, repugnante. O saldo: solidão para aquele que adota o egocentrismo.

(1- Inventário de desejos: é toda e qualquer coisa – animada e inanimada, concreta ou ficcional, humana, semi-humana e não humana – que tem a real potência de trazer prazer, gozo, satisfação, bem-estar a um ser vivo, o qual, consciente e inconscientemente, vai somando e subtraindo elementos que faziam, fazem e farão parte de seu inventário de desejos. Exemplo: um indivíduo qualquer e alguns dos objetos que fazem partes de seu inventário de desejo: suco de manga, sua irmã caçula, fazer sexo oral, comer acarajé com mostarda, ir à praia, assistir filme de terror, ler romance policial, quebrar pratos.... O inventário de desejos sempre está em mutação e, na razão de soma e subtração, tende a crescer ao longo da vida do indivíduo. Alcança seu pico na fase de transição entre o final da vida adulta jovem –aventuras, descobertas, rebeldias... – e o início da vida adulta madura – responsabilidades, estabilidade econômica, formação de família... – Essa força só parece minar quando a velhice chega, mudando a razão soma e subtração do inventário de desejos, que passa a tender ao decréscimo – é justamente quando o indivíduo vê seu corpo em estágio avançado de deteriorização, os filhos já se foram, acredita que já não é mais útil à sociedade, vem a solidão, modorra e sedentarismo...; 2- elemento humano: toda e qualquer espécime que pertença à espécie homo sapiens sapiens, seja adulto ou criança, velho ou novo, mulher ou homem ou bissexual ou homossexual, macho ou fêmea, mais tudo que a psique humana produza em sua introspectividade, emanada apenas pela linguagem oral verbal ou corpo-gestual; 3- elemento semi-humano: todo e qualquer ser que não esteja dentro dos limites do humano, o qual passa por alguma transformação provocada pela vontade e criatividade de um indivíduo humano: pintura, escultura, papel, música reproduzida não pelo aparelho fonador humano, livros, casas, animais domésticos, estradas, comida não in natura e manipulada, cocô já excretado...; 4- elemento não humano: tudo que não está contido nos limites do humano e do semi-humano: animais selvagens, estrelas, florestas virgens, cadeias de montanhas inexploradas...; 5- amor nuance: é o amor total, o todo, formado por partes menores que se unem e compõem o todo. Ele é como o amor se mostra, em frações, nuances, partes do amor em muitas formas possíveis de realização, manifestação e materialização: amor fraternal, maternal, conjugal, material, sobrenatural...)

              Qual aquele que não possuiu, tem ou pretende manufaturar alguma maquinação maldosa contra algo ou alguém? Não há exceções. Em algum momento da vida (passado, presente e/ou futuro) cometemos, fazemos ou empreendemos alguma crueldade em face do outro. Por legítima defesa, por capricho, necessidade ou até mesmo mero prazer, sentimos certa catarse em não só ver a desgraça alheia, como babamos conjeturar e executar alguma crueldade; talvez em doses relâmpagos, ou homeopáticas e até mesmo sazonais. O que vale é fazer o mal e tirar algum proveito e/ou prazer disso – quem sabe um bobo esboçar de Riso Monalisa ou uma gargalhada Fafá de Belém. – A desgraça do outro também faz parte do inventário de desejos, ainda mais se o infeliz for algo ou alguém que nos desprezou, humilhou, agrediu, repudiou ou simplesmente rejeitou e nos legou indiferença – nada pior que a ignorância total e a indiferença ferrenha pra chocar o ego narciso e espatifar o espelho da vaidade. Antes o ódio do que a simples e trivial não tô nem aí pra você sincero, sem palavras, gestos, algum sinal. Isso não só mata a pessoa; corrói ela em perpetuidade. Antes a destruição total. Caso contrário, fica sempre algo inacabado para aquele que é ignorado; uma pendência que, muitas vezes com o passar do tempo, só aumento, ou, na melhor das hipóteses, cicatriza, mas deixa uma marca inesquecível. Outras vezes fazemos o mal por fazer, seja por descuido, seja por negligência, seja por falta de compromisso com o outro (esse outro pode ser tanto um amigo, um familiar, um inimigo ou um mero desconhecido). Até com pessoas queridas, cometemos bobagens e atrocidades. Parece instintivo causar assimetrias e distúrbios em qualquer tipo de relacionamento. Talvez isso, de alguma forma, contribua para reestruturar as relações, dando novo fôlego a ela ou abrindo novos caminhos para o que estar por vir – seja bom ou péssimo. Ao futuro cabe ler as cartas ou os búzios. – O fato indubitável é: temos um instinto cruel, num continuum de mais para menos e de menos para mais medido e dosado pelo espaço-tempo, intempéries do ser e conveniência. Não há dúvidas que em cada um de nós há um demônio que busca equilíbrio com uma santidade através de batalhas nada amigáveis – mas nada de demônios e santidades de acordo com os conceitos vulgares, cristãos, estabelecidos. Demônios e santidades aqui simplesmente entendidos como forças opostas que causam o equilíbrio (por meio do desequilíbrio; eis aí o paradoxo) entre as relações: ora fazer algo bom, ora fazer algo ruim. O problema está é justamente no ajuste individual em quando começar, dosar e parar o estar e ocorrer demônio ou santidade. Cada um leva uma carga maior de um em detrimento do outro, porém todos portam em si essa dicotomia conflituosa. Claro que isso não é sempre. Como disse, o espaço-tempo mais a conveniência do agora contribuem para relativizar essa lógica. Contudo, no geral, Sicrano tende a ser mais demônio que Beltrano em suas relações idiossincráticas. Isso não quer dizer que em situação W Sicrano não seja mais santidade que Beltrano. Conclusão: o domínio ou pelo menos o convívio harmônico entre essas forças é que fará de você uma pessoa mais amada que odiada ou mais temida e massacrada que cortejada e admirada.
              A quem a burrice nunca debruçou sobre a cama? Você conhece alguém que passa ao largo da estupidez e da falta de visão, perspectiva e sensatez? Creio que não. Volta e meia, emanamos alguma forma de burrice – estar burro é quando se comete alguma ação ou ato que traz prejuízo a outros e/ou a si sem deixar como saldo alguma espécie de benefício para si ou a terceiros, prejudicando a muitos ou a todos; ou ainda quando esse agente (o burro) simplesmente faz algo que prejudica apenas a si, além de não trazer benefício algum a terceiros. Em outras palavras, efeitos produzidos com intuito de barganhar vantagens e sucesso que simplesmente fracassa devido, sobretudo, à autoconfiança excessiva, subestimação dos obstáculos a se enfrentar, supervalorização do suposto potencial que possui, inexistência de autocrítica, obstinação inabalável, ausência de perspectivas, falta de estratégias, planos mal-elaborados e executados, ignorância em face de conselhos e advertências de outros. O burro sempre acha que pode tudo e um pouco mais. É um Super-homem ou uma Mulher Maravilha. Condenado à sua cegueira incólume, ele nunca desconfia que possa estar indo pro caminho errado e continua em sua empreitada com todo vigor. – Os efeitos produzidos pela burrice podem ser devastadores. Sobra no ambiente: constrangimento, aborrecimento, insatisfação, frustração, perda de confiança, respeito e credibilidade, baixaestima, rancor, raiva, ódio e até desprezo e indiferença tanto naquele que foi vítima do burro como no próprio burro. O clima fica feio e pesado. As relações ficam complicadíssimas e até insustentáveis. Burrice, portanto, pode até não matar, mas chega bem perto – isso quando não acontece uma tragédia magnânima recheada de sinistros, cadáveres. – Ela desmantela a vaidade de qualquer um, que não só fica de saiajusta, se encontra desarmado em zona de perigo, vulnerável a todo e qualquer tipo de retaliação. Isso sem falar na vítima, que perde, se não toda, boa parte de sua compreensão, compaixão, tolerância e paciência. O fim? Às vezes sim, às vezes muito perto disso.
               Quem nunca se deparou com a ignorância em alguma situação em que sua inteligência prática ou enciclopédica foi posta em xeque? Todos de novo, né? Isso é inevitável haja vista que Conhecimento é extremamente gigantesco, heterogêneo, mutante e eternamente elástico. Ninguém o acessa nem muito menos o detém por completo. Apenas frações dele são disponibilizadas de maneiras distintas a cada indivíduo, segundo sua realidade e conveniência, o qual possui seu inventário de conhecimentos único e inconfundível, confundindo-se com sua identidade e personalidade. Por isso que até o mais danado dos eruditos se aborrece mediante seu fracasso intelectual prático ou enciclopédico; coisa que não é apenas privilégio dos ditos e tidos como néscios, e estúpidos, e bárbaros.
               E quem jamais depositou certa quantidade de fé em algo ou alguém, de maneira até ingênua e inconsequente, e depois se sentiu lesado, ludibriado, enganado? Todos nós outra vez. Como a verdade é o convencimento e tendemos a acreditar naquilo que reforça as perspectivas de nosso inventário de desejos (acrescente aí sempre a vaidade e a conveniência), vira e mexe caímos no famoso conto da carochinha; claro, uns com mais frequências que outros. Isso detona qualquer um. E irrefutável é a pergunta: Como pude ser tão idiota a tal ponto? Sou mesmo um merda. Merecia era mais! Será? O certo é que para um talentoso sempre há outro ainda mais argucioso. O erro do enganador é achar que todos são bestas. Com isso, sua esperteza vai crescendo de um gatinho até um terrível Tiranossauro, que depois o engole. Mãodupla. Em algum agora somos as vítimas, em outro somos os algozes. Fato: lucrar na ingenuidade e boa-fé alheia parece fácil e muito prazeroso, deixando a falsa ideia que nunca se vai pagar pelo dano cometido. Puro engano. Por outro lado, é terrível se encontrar na desgraça daquele que é O Otário, mas o ditado popular é infalível, o mundo dá voltas. E nessa, sempre somos ora caças ora caçadores. Há esperteza, maldade e ingenuidade em todos nós.
          Alguém ainda não provou da inveja e usura? Muito provavelmente sim. Por reflexo, é comum sentirmos inveja de alguém que possui algo ou alguma qualidade que desejamos, e não detemos. É um sentimento que invade sem cerimônias. Basta se deparar com o objeto desejado e não obtido que logo se sente a inveja sobre aquele que o tem, e não o invejoso. A treva! Para o invejoso, o objeto desejado era para ser dele; é ele (e não mais alguém) o mais apto para tê-lo. Portanto, ele cria aversão e ojeriza em face daquele que supostamente tirou dele o seu bem, cerceando seu direito de posse e, por extensão, minando parte de seu inventário de desejos. Inevitavelmente, frustração, raiva, ódio, repúdio, indignação o controlam. O invejoso já não consegue perceber que toda e qualquer pessoa tem igual direito de possuir e usufruir de qualquer coisa com chances e oportunidades semelhantes a suas. Há espaço e vez para todos, só o invejoso que não vê isso com sua vaidade abalada. E o engraçado é que tanto podemos emanar a inveja para um ente querido, quanto para um inimigo ou ignorado, como para um desconhecido. Todos estão sujeitos à inveja e ao invejoso. Quanto à usura, ela anda abraçada com a inveja. Não esqueçamos que o que distingue um indivíduo de outros nas relações sociais é exatamente o quanto e como ele pode acessar o poder (econômico, político, cultural...) e, com ele, barganhar bens, obter vantagens, exercer influência, deliberar ordens, obtendo prestígio e status. Não é por descuido que quanto mais se tem mais se quer possuir. Acumular, juntar, agregar. Dividir jamais! Afinal, quem quer ser mais um entre tantos bilhões anônimos por aí? Pois é, a sorte está lançada – sorte ou estratégias de manutenção do sistema que marginaliza muitos, porém carrega poucos para o oásis dos abastados, Os Senhores e As Damas? – e o bolo está sobre a mesa. Quem tiver a maior espátula que arranque a maior fatia! O problema é ter a espátula...
                Qual aquele em que algum agora nunca sentiu vergonha de si ou de outrem, nunca se encontrou com a baixaestima e a depressão por motivos diversos? Todos. Motivos são muitos, contudo parece que o atual paradigma de estilo de vida ocidental(izado), o qual valoriza O Belo, Forte, Destemido, Criativoinovador, contribui para exaurir a pulsão do inventário de desejos de se expandir e se manifestar, causando baixaestima, sensação de fracasso e derrota, frustração outra vez e a inevitável depressão. Isso acaba por encaminhar o enfermo para os confins de sua introspectivade blindada, guarnecida de possíveis ataques externos – o difícil nessa fase é distinguir o que é de fato ataque de ajuda ou simplesmente experiência oriunda do incessante devir que é a vida! – E aí o bicho pega mesmo. Já fragilizado, o indivíduo Patinhofeio, num estado avançado de refúgio e exílio em si, acaba por desenvolver inúmeras patologias psiquicossociais, as quais o levam à morte em vida*.
            Quem não se curva vez por outra ou quase sempre a muitas convenções e leis sociais, à moral e à ética (ou a pelo menos parte delas), inibindo, podando, tapiando, adiando ou amenizando vontades vulcânicas de seu próprio ser, seja por temor, repressão, ignorância ou simples conveniência? Eu, você e ele. A todo momento, elementos que compõem e fazem a ordem e montam o maquinário da sociedade para que ela possa existir, sobreviver e autossuster-se abala, numa escala de forte a moderado e ao intenso, toda e qualquer pulsão por vida, consequentemente a manifestação da idiossincrasia por meio da manifestação do inventário de desejos. Infratores e colaboradores, todos nós somos de certa forma cidadãos e marginais ao mesmo tempo – diga-se de passagem que muitos não oscilam entre esses dois tipos, pois já foram localizados, escrutados, classificados e alojados no submundo do marginal.
                Há muitos outros problemas que poderiam ser apreciados neste texto, ampliando-o por mais 50 ou até cem páginas. Não, não faria isso nem com você nem comigo! Creio que o que foi abordado até o momento já dá uma dimensão do que é essa prisão sem muros: o nosso próprio ser, ou seja, a subjetividade, introspectividade e inconsciente que recheiam cada um de nós. Porém, a discussão não para por aqui, não.

III

                Compomos uma sociedade que valorizou e valoriza demasiadamente os Deuses, os super-heróis, os supra-humanos. Isso indica que mais que buscamos a perfeição, ambicionamo-na com afinco. Como ela é ideal, nunca a alcançamos; poucos, em fleches de agoras, a tangenciam. E ela continua sendo um horizonte querido com muitas e até todas as forças, o qual nunca chega; apenas se mostra ao longe nobre, solene, soberbo e indiferente. Portanto, já que não podemos ter a perfeição, forjamos o seu simulacro. Como tal, deve ser raro, sublime, insigne, notável e superior, não pode estar associada a qualquer um. Eis aí um dos porquês da construção dos supra-humanos. Por isso, não é gratuita a exibição, ostentação, o frenesi, a imitação, a idolatria frente gente singular: os ricos, os talentosos, os famosos, os poderosos, os belos, os excelsos. Logo, quem não deseja sair do anonimato e passar a fazer parte do rol das celebridades, provando de tudo que o mundo maravilhoso do-quem-pode-tudo? Não é à toa que existe jogo de azar, não é?
            Desde cedo, na infância, já começamos a criar a vontade de sermos diferentes. Na adolescência, esse desejo parece se radicalizar, explodindo em rebeldias e vontades que chocam, amedrontam e até trazem problemas. Chega a fase adulta e o desejo por se distinguir dos que estão a volta não cessa. Pelo contrário, ganha mais fôlego com a aquisição do conhecimento, a conquistas de bens e do direito legitimado de emitir ordem, emanar influência, causar carisma e inveja, ostentando prestígio e privilégios – nada mais que o acesso ao poder. – Por fim, O inventário de desejos convoca a Vaidade, que, acompanhada do Orgulho, ganha espaço, dimensão, forma, conteúdo, força e influência, passando a emitir vozes pelo indivíduo. Inevitavelmente, A Conveniência chama o Egoísmo, retrai a humildade e sufoca o altruísmo o máximo que puder. Irrompidas são a indiferença, intolerância, arrogância, soberba, sentimento de superioridade, sensação de inalcançável, de infalível e de intocável, nobreza. A insensibilidade reina plena. O egocentrismo passa a ser o caminho de tantos. E, inevitavelmente, a frustração vem forte, abraçada com a solidão. Daí o sucesso tem seu reflexo no espelho que sorri irônico e sarcástico: fracasso!
              Fracassados. Somos a derrota numa intensidade que varia de indivíduo a indivíduo, o qual, com mais talento ou mais tacanhice e mediocridade, disfarça a desgraça que faz brotar lágrimas ineolháveis de si. Felicidade? Utopia! Então, o jeito é simular, viver num teatro constante, no qual quem melhor finge, melhor vive. Ridículo.
              Tendemos unilateralmente a não ver a fraqueza, a derrota, a falha, o fracasso, a simplicidade com bons olhos. Pessoas frágeis, enfermas e deprimidas, então, são estigmatizadas. Inevitavelmente, vamos ao encontro da dissimulação. Como muitos não acreditam que podem aprender, amadurecer, se fortalecer, crescer através da dor, escondem seus pontos fracos e exaltam suas qualidades boas, super valorizando suas conquistas e vitórias. Talvez esteja aí uma das razões de muitos de nós possuirmos dificuldades de expor nossa intimidade, tronando-nos introspectivos, evitando o diálogo acolhedor, empurrando pro lado conselhos sábios. A ordem é esconder e fingir que tudo está bem. Pura aparência. Mentiras após mentiras. Somos fraudes diluídas nos discursos de verdade.
              Em consequência, surge o suicídio. Suicídio de fato, quando o indivíduo tira sua própria vida, e o suicídio em vida, quando o ser se refugia em si mesmo, se trancando, tendo aversão a muitas coisas do mundo externo. E a inter-relação fica abalada, a troca de informações e experiências se fragiliza, a amizade empobrece, o amor definha. Frustração, depressão, infelicidade, sensação de irrealização e incompletude inundam o indivíduo.
               No silêncio, muitos se sufocam. E a consciência pesa na culpa que ela exibe. Solidão, fracasso, ausência de amigos, família estilhaçada, insatisfação na vida profissional, angústias, medos, sensação de abandono e vazio, incertezas, vontade constante de fugir, falta de coragem e forças. Arrependimento vem só às vezes. O certo é o subjuntivo inquietante e irritante: e se eu pudesse... fizesse... Círculo vicioso, retroalimentador. Quanto mais se martiriza, mais doente se torna.

IV

                 Chegamos ao que foi afirmado no início desse texto: os nossos problemas – que são muitos e de variados gêneros, manifestados em nuances de formas, estados e intensidades – são os nossos predadores. É o nosso ser único a prisão sem muros – tudo aquilo que não nos agrada e não conseguimos nos desvencilhar – da qual nunca nos libertamos completamente, levando-nos ao conflito. Não é à toa que você leu várias vezes a palavra frustração aqui nesse texto.
                 Há um demônio em cada um de nós. Não o demônio de Dante ou dos cristãos, muçulmanos e judeus. Um outro demônio... O Demônio monstro que nos devora insaciavelmente a todo o agora. Em outras palavras, o mesmo monstro, A Coisa, que me perseguia e me devorou no sonho contado na primeira parte desse texto.
                Pare, pense, reflita. Tente alcançar o que é o drama. Você sabe que pode escapar de um lugar insalubre e terrível, onde só há sofrimento e dor, pois não há cercas, muros, paredes, fossas que impeçam a fuga. Mesmo assim você não escapa. Sabe por quê? Porque esse lugar hostil é seu ser. Essa prisão é o conflito hodierno que está na sua introspectividade, faz parte da sua identidade e personalidade; um universo forjado de dentro para fora e de fora para dentro, com seu auxílio e a vontade de terceiros.
               Ato contínuo, acredito que a única forma de se escapar dessa prisão sem muros é fazer algo extremamente difícil, quase impossível: reconhecer os erros e as falha de uma vida inteira; perdoar-se e perdoar; desejar ajuda; ansiar pela mudança; arquitetar a transformação; dar os primeiros passos, buscando a humildade, simplificando as coisas e o modo como leva a vida; treinar o altruísmo por meio da doação, ouvindo, escutando e assistindo ao outro, dando-lhe atenção e prestígio; exercitar o amor e a amizade todos os dias, sem cessar. A transformação vai demorar. Recaídas acontecerão. Vontade de desistir vai chegar. Porém, o certo não é fazer exatamente o certo; é almejá-lo, persegui-lo, fazendo por onde, marginalizando a modorra, a baixoestima e a perspectiva negativa. Perseverança. Persistir sempre na luta constante de se tornar alguém melhor para si e para o outro. As conquistas não tardarão a vir. Virão, sim, aos poucos, em dozes de recém-nascido, paulatinamente. E você conseguirá escapar da Coisa que governa o mundo desconhecido e enigmático do seu Inconsciente.

(*) Veja o texto O marginal é um desejo nosso, aqui mesmo neste blog.

Por Diógenes Silva. Salvador, 27 de novembro de 2010.







sábado, 13 de novembro de 2010

Cadê meu Blanc? [crônica]

Hoje já existe a triste resignação. Esperança já não tenho mais. Faz cerca de duas semanas que ele desapareceu. Nenhuma notícia. Apenas reinam a ignorância que perturba, a curiosidade inquieta que não cansa de perguntar o que pôde ter acontecido, especulações e a ausência que traz saudades...

Muitos dizem que ninguém não é insubstituível, a não ser nossas mães. Discordo em parte. Blanc também é insubstituível! Filho da tão linda e amada Broke Back, ele nasceu e cresceu aqui em casa. Acompanhei seu parto. Foi o último dos quatro filhotes; o único macho entre três fêmeas.

Caolho de nascença, era o mais lerdinho: o que menos mamava, aquele que apanhava de todos, o mais ingênuo. Possuía um temperamento tênue. Era extremamente manso, chegava a ser lerdo mesmo o bichinho em suas cores: amarelo-caramelo e o branco predominante – aí o porquê de seu nome Blanc.

Sem dúvidas, era mais um Pereira da Silva. Todos o amavam, principalmente quando minha mãe, em sua razão torpe, cometeu a loucura de jogar Broke Back fora, no mato mesmo, num local longe e desconhecido, abandonando a coitadinha à própria sorte com um barrigão prestes a vomitar gatinhos. Crueldade, mas uma maldade compreensível. Minha mãe é uma pessoa ignorante. Age muitas vezes por instinto e impulso. Vendo a casa encher de gatos, a primeira coisa que fez foi se desfazer de todos, um por um, a começar por aquela que gerou a todos. Todos os gatos foram jogados fora ou dados, menos Blanc, o único macho.

Reinando sozinho em casa, Blanc era nossa diversão. Com suas travessuras de felino, nos fazia rir. Ficávamos encantados com seus jeitos e trejeitos, além das manhas, caprichos, esquisitices. Muitos mimos. Era adorável.

Logo, veio a fase adulta. Ganhou a rua... Ia atrás das gatas. E a cada saída dele, voltava sujo, ferido, acabado. Deu foi muito trabalho pr’a gente.

Lembro como hoje a primeira vez que Blanc ficou 24h sem dar os bigodes em casa. Todos aqui inquietos: Cadê Doquinha? Doca ainda não apareceu hoje. Onde ele está? – Doca era como os demais daqui de casa chamavam Blanc. Como ninguém sabia pronunciar seu nome em francês, o renomearam carinhosamente de Doca devido ser caolho, lerdinho e muito manso. – Ficávamos todos preocupados, mas, pro nosso alívio, ele retornou logo cedinho no outro dia. E, assim, isso se tornou rotina: todas as noites ele passava fora de casa e, provavelmente quando encontrava alguma gata no cio, só voltava depois de um dia. Nunca ultrapassou essa marca. Era contado. Completava 24h, ele reaparecia faminto e miador.

Um dia tudo mudou... Doca ou Blanc saiu como de costume, e não mais voltou. Procuramos onde pudemos. Nada! Provavelmente, ele foi morto por algum gatocida inconsequnte, envenenado, atropelado, sei lá. O fato é que ele sumiu sem deixar vestígios. Duvido que alguém o sequestrou porque, apesar de ser bem cuidado, ele só andava acabado, cheio de arranhões e algumas feridas devido suas saídas. Creio mesmo que ele já está morto.

Quantas foram as vezes que acordei na esperança de rever meu Blanc na porta de casa! Pensava nele várias vezes, me perguntando o que teria acontecido, onde ele estava e por onde passou pela última vez. O que queria mesmo era reencontrar meu gatinho, pegar, colocar em meu colo, fazer cafuné, mas, a cada dia que se passava, eu já começava a aceitar qualquer resposta; até a de que ele de fato estava morto.

Um dia, acordei assustado e muito triste. Tinha sonhado que eu havia encontrado cadáver de Doca em decomposição no quintal. Dias depois, sonhei outra vez com ele. Sonho bom. Levantava e o via quietinho no canto da cozinha. Alisava meu Branquinho. Acordei com uma saudade imensa de meu filhote...

Uma sensação de vazio me preenchia. E a vontade de obter uma resposta só crescia. Queria ao menos encontrar o seu corpo. Agora sei como é a dor de quem perde um ente querido. Sei por quais sensações deitam aqueles que possuem um desaparecido em sua família.

Indubitavelmente, a dor provocada pela ignorância e dúvidas chega a ser maior do que a dor da perda certa, aquela em que você tem a certeza do que ocorreu, pois você enterrou quem amava, dando o último adeus e prestando as derradeiras homenagens. O Fim finalmente. Contudo, eu (e muitos por aí) não tive esse direito. Cassado foi esse privilégio de mim. A última lágrima foi roubada junto com o taco que se foi de mim, restando apenas uma ferida crônica.

Não sei se é por burrice ou por descuido, só sei da pior forma que acabamos por descobrir o quanto gostamos do ser amado e a importância que ele tem pra nós em nossas vidas justamente no agora em que o perdemos. No agora em que não dá mais pra se arrepender de alguma coisa, voltar atrás, fazer tudo que se queria, e não se fez. Por isso, demonstrar o que sentimos de bom a alguém é mais válido enquanto ele ainda está entre nós, porque depois restam muita impotência e o subjuntivo: e se eu tivesse... Terrível!


Adicionar legenda
 Blanc ou Doca nos surpreendeu até no seu adeus mudo. Única lembrança da querida Brokeke, sua ausência me remodela e a saudade que ele me legou me faz ter mais apego, cuidado, atenção e amor com aqueles que nos fazem rir e chorar nas instâncias do Amor. Amar é bom; até mesmo quando as lágrimas são cegas.



Diógenes Pereira. Salvador, BA 03/11/2010